Está registrado na história que o bispo francês de Avranches, Saint-Aubert, sonhara três vezes com o Arcanjo São Miguel. Este lhe pedira que construísse uma abadia num dos pontos mais altos da Normandia, o Mont-Tombe, uma pequena ilhota que sofre diariamente os efeitos do sobe e desce da maré do Oceano Atlântico.
Por ser tratar de um local com uma topografia desafiadora, o bispo decidiu ignorar. Acreditava que eram delírios. Até porque, não haveria técnica para erguer um santuário a quase cem metros de altura, sobre uma rocha pontiaguda. Mas no terceiro sonho, o Arcanjo apertou a cabeça do religioso com o dedo até fazer um buraco no crânio. Assustado, o bispo decidiu atender o pedido.
Era o ano de 708 quando Saint-Aubert mandou construir o santuário em homenagem ao Arcanjo São Miguel e, assim, começou a longa e fantástica história do Mont-Saint-Michel, que fica a mais de 350 quilômetros de Paris.
A arquitetura da abadia é impressionante. A estrutura é dividida em três níveis, que envolvem o topo da monte sobre uma plataforma de 80 metros de comprimento. O visual do último nível é espetacular, mas o mais incrível é observar o movimento da maré que chega a recuar vários quilômetros. Os guias alertam para que se evite caminhar na baía durante a maré baixa, porque há areias movediças e pela rapidez com que o mar volta a subir.
No século X, os monges beneditinos se instalaram na abadia e uma aldeia medieval foi construída na parte mais baixa.
Desde àquela época o local se transformou em um ponto de peregrinação, especialmente de quem faz o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e da invasão constante de turistas.
Durante a Revolução Francesa os monges foram expulsos e o local serviu de cadeia aos resistentes.
São 3,5 milhões de visitantes a cada ano. É Patrimônio Mundial da Humanidade, desde 1979, título concedido pela Unesco.
Decidimos conhecer Saint-Michel no finalzinho das férias, em janeiro de 2018. Compramos uma excursão pela Paris City Vision, ao custo de 292 euros para duas pessoas, com áudio-guia incluído. Também é possível pegar um trem em Paris e ir até Caen, em uma viagem de pouco mais de duas horas. E de Caen pegar uma excursão até Saint-Michel. É importante planejar, porque corre-se o risco de chegar em Caen e não ter excursão para a data desejada, sobretudo no inverno.
O nosso ônibus saiu as 7h15min da Rue des Pyramides, próximo ao Museu do Louvre, e retornou depois das 21h15min. Passou pelas cidades de Rouen, Le Havre, Deauville e Caen. Duas paradas de 20 minutos para espichar as pernas, fazer lanches e usar os banheiros.
Tempo de permanência em Saint-Michel, cerca de quatro horas e meia, sob uma temperatura em torno de 4 graus e um vento gelado constante, mas valeu todos os segundos e minutos do passeio.
Alguns quilômetros antes da parada final, depois de cinco horas de viagem, é possível visualizar a igreja construída no topo do monte. O transporte entre o estacionamento, distante pouco mais de um quilômetro da entrada de Saint-Michel, é realizado por um ônibus (navete), a cada meia hora, sem custo. O coletivo estaciona a uns 300 metros do monte. O visual é simplesmente espetacular, inesquecível.
O Mont-Saint-Michel, pela grandiosidade da abadia, supera em belezas outras cidadelas medievais da França como Sarlart-la-Canéda, Provins, Saint-Émilion, Eze e Saint-Paul-de-Vence já descritas pelo blog. Carcassone ainda é a mais linda entre as cidadelas que conhecemos.
https://blocodeviagensdosthomas.wordpress.com/2018/01/22/2654/
https://blocodeviagensdosthomas.wordpress.com/2016/01/17/provins-a-cidade-medieval-proxima-de-paris/
https://blocodeviagensdosthomas.wordpress.com/2016/01/05/a-cidadela-medieval-de-saint-paul-de-vence/
https://blocodeviagensdosthomas.wordpress.com/2016/02/28/carcassonne-a-joia-medieval-da-franca/
Com ruelas estreitas de pedras irregulares, sem a circulação de veículos, Saint-Michel tem uma das ruas mais estreitas da França, com apenas 50 centímetros de largura. Só passa um de cada vez. Diz a lenda que a tal rua, por ser escura e afastada, servia para encontros amorosos na época medieval, daí o apelido de rua dos cornos. Pessoas com sobrepeso terão dificuldade de subir ou descer a passagem. Pessoas sem sobrepeso, também.
Um trecho do catálogo distribuído logo na entrada da igreja destaca: “A abadia do Mont-Saint-Michel é um monumento único. A sua concepção não pode ser comparada com a de qualquer outro mosteiro. Tendo em conta a forma piramidal do monte, os mestres de obra da Idade Média envolveram a rocha granítica com os edifícios. A igreja abacial, situada na parte superior, repousa sobre criptas que criam uma plataforma capaz de suportar o peso de uma igreja de 80 metros de comprimento. A estátua do Arcanjo São Miguel, que fica no alto do campanário, foi criada em 1897 pelo escultor Emmanuel Frémiet, e restaurada em 1987”.
Uma portuguesa que trabalha na abadia contou que a imagem do arcanjo é revestida com 85 gramas de folhas de ouro muito finas.
Antes de deixar Saint-Michel, aproveitamos para conferir a tradicional receita de omelete do restaurante La Mère Poulard, que fica bem próximo à entrada da cidadela medieval.
O sucesso do omelete começou com Anne Boutiaut, que trabalhava como copeira para um arquiteto francês que foi contratado pelo governo para a restauração da abadia em 1872. Um ano depois, Anne se casou com Victor Poulard, padeiro da cidadela, e adotou o novo sobrenome.
Os dois foram gerentes da Hostellerie de la Tête dOr e passaram a atender a um número cada vez maior de peregrinos. Como os fiéis dependiam das marés para entrar ou sair de Saint-Michel, Anne Poulard criou um suflê de omelete que ajudava a recompor a energia dos romeiros. A receita ficou famosa em toda a França.
O La Mère Poulard é o mais antigo entre as dezenas de restaurantes que ficam na parte baixa do monte. Está repleto de fotos de personalidades do cinema, esporte, música e política de todo o mundo. A cozinha é aberta e o visitante pode observar como é feito o omelete, considerado o melhor do mundo. Talvez não seja o melhor, mas certamente deve ser um dos mais caros. Dois omeletes cremosos e duas taças de vinho Bordeaux custaram 74 Euros, bem mais do que os preços em outros bons restaurantes locais, mas valeu a experiência gastronômica que fechou com chave de ouro o nosso passeio pelo Mont-Saint-Michel.






































Parabéns pelo texto e fotos. Levei meus filhos lá num verão. Eles adoram e queriam ficar mais tempo. Fizemos o percurso de trem e pernoitamos num hotel fora da abadia. Quero repetir e desta vez ir de ônibus.
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Adorei o post, vai ser muito util pois em julho iremos os quatro pra la. So tenho duvida se meus filhos agentarao a subida ate a abadia… é muito longa a subida? E o preco dos omeletes e duas tacas de vinho no Mère Poulard? Credooo! Kkkk vou comecar a juntar agora…. bjos
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A subida não é exagerada, ainda mais para as crianças. Vocês vão subindo e vendo as atrações até chegar na Abadia. O omelete é bom mas é muito caro.
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